Games e Arte

Arte rupestre, a primeira manifestação.

Arte rupestre, a primeira manifestação.

Sempre existiu uma discussão muito grande, pelo menos entre os leigos (dentre os quais, eu), sobre as possibilidades de enquadrar os games eletrônicos dentro das várias modalidades de arte. Uns, com base teórica, defendiam essa possibilidade, enquanto outros, também com base, defendiam que isso não era possível. No entanto, como se trata da adequação de algo em um conceito, pode-se adotar e defender as duas possibilidades, mesmo porque, isso seria filosofia pura, e como tal, o melhor é esperarmos algum filósofo por aí, dar uma palavra “final” – que não será final coisa nenhuma – a respeito dessa controvérsia. Games são ou não são arte?

Sim e não poderia ser uma boa resposta. E não é por causa daquela velha balela de que “há arte em games mas games não são arte”. A divisão entre arte e não arte não se encontra dentro dos games, mas entre eles. Existem games que não são, nem de longe, arte, ao passo que outros games são arte legítima.

Basicamente, arte é um produto da criatividade humana que expressa esteticamente valores carregados de emoções, História, moralidade, cultura, e tudo quanto o artista queira expressar. Essa forma de comunicação pode dar-se por basicamente dois sentidos: a audição e a visão, ou uma associação entre elas, como nas obras audiovisuais. Assim, se você está vendo algo que foi feito para apresentar alguma idéia que objetiva causar uma reação valorativa (moral, sentimental) no interlocutor.

Música!

Bem, se compararmos essa definiçãozinha de arte com o que vemos em alguns games, muitos games, aliás, conseguimos visualizar que há uma semelhança muito grande entre a conceituação de arte com estes jogos. A exemplo disso, temos jogos eletrônicos com uma narrativa profunda, desenhos muito bem feitos, músicas complexas compostas especificamente para eles, na maioria das vezes, orquestradas. Todos esses fatores relacionados entre si no sentido de alcançar as mais variadas impressões e reações em quem está jogando. E não digo reações de reflexo mecânico ou coisas desprovidas de valoração, estou me referindo a reflexão mesmo, como a que realizamos quando vemos um quadro, vemos um filme, e, principalmente, quando lemos um livro.

Exatamente, muito vem se cogitando que, além de jogos eletrônicos serem manifestação artística, eles se aproxima muito mais da literatura do que do cinema. Games como Final Fantasy, Lost Odyssey, Eternal Sonata, por exemplo, possuem uma narração tão desenvolvida, que substituindo as imagens do game pela descrição das personagens e cenários, o game facilmente seria convertido a um livro, interessantíssimo, por sinal, dada as discussões morais e existencialistas complexas. Lógico, ver complexidade desses games depende de quem joga: Um ser humano consegue enxergar-se em um espelho, já um cachorro não. Uma pessoa consigue ver uma riqueza muito grande em certos enredos, para outras pessoas, no entanto, esses detalhes passam despercebidos.

Galilei desse mês.

Galileu desse mês.

Uma recente matéria da revista Galileu (Agosto de 2009, nº 217), o repórter Jones Rossi escreve sobre “O Futuro da Arte” nas paginas 76 a 83, apresentando uma série de novas maneiras de se entender e fazer arte. Entre essas “novas artes”, Rossi aponta os jogos de video game como novos integrantes. O repórter destaca as novas possibilidades criadas pelo avanço tecnológico que possibilita aos desenvolvedores de games criarem novos mundos digitais, expandindo as fronteiras da criatividade, sintetizando várias faculdades para a criação de algo totalmente novo e fantástico.

Como exemplo, o reporter cita quatro jogos: Prince of Persia, Fallout 3, Bioshock e Shadow of The Colossus. Todos os games têm em comum, narrativas desenvolvidas, personagens complexos e densos, em um conjunto que apresenta uma série de questionamentos filosóficos, morais e sentimentais, com plena capacidade influenciar as pessoas que os jogam. Foi o que ocorreu com o diretor Mike Binder, que usou Shadow of The Colossus como metáfora para seu filme, Reine Sobre Mim, ao retratar cenários vastos e silenciosos para representar a solidão do protagonista que perdeu mulher e filha no atentado de 11 de setembro, como aponta o repórter. É notório que os games vêm se apresentando como uma categoria dentro da Literatura, jamais substituindo livros, mas dando maior variedade e riqueza a Ela.

Assim, não nos resta muita dúvida sobre o caráter artístico dos games, que já podem ser classificados como tal. José Carlos Damasceno, Professor Mestre e Coordenador do Curso de Letras da Faculdade de Educação Ciências e Artes Dom Bosco, de Monte Aprazível-SP (FAECA), aponta para a certeza de que games são manifestação artística e cultural da atual sociedade, justificando, ainda, que não é sempre que a arte nasce “per si“, dizendo que algumas artes não nascem com o espirito artístico em seu cerne, mas transformam-se em arte mesmo assim. É o caso dos games, que visam primeiramente o lucro, mas, levam, indiscutivelmente, a um “ver-se a si mesmo”.

Nunca foi tão cabível a expressão “biblioteca de games”. Obrigado por lerem!

Henrique Messias, PEB II de Geografia da EE Ségio Leça Teixiera, Franca-SP.

Somente um adendo. Alguns dizem que games não são arte por haver modificação do jogador dentro dele, e isso modificaria o que o “artista” planejara. Mas, essas intervenções no jogo não são todas pré-determinadas pelo criador do game? Ou o jogador além de jogar, também programa, modificando o game? A verdade é que nada acontece dentro de um game sem que o criador dele tenha planejado.

Em arte não existe game over, e eu pergunto: Existe game over em Prince of Persia?

O único controle que o jogador tem sobre o game é de quando as coisas vão acontecer, só que ao invés de virar a página, ele tem que fazer outros movimentos. Isso fica claro quando se joga RPG’s, em que o jogador apenas vai passando a história para frente. São histórias transmitidas por outro meio.

Uma exposição de quadros, em que o artista criasse caminhos que se bifurcassem para que o observador pudesse escolher qual rumo tomar, seria tão arte como qualquer outra exposição, com o adicional de se encontrar vários sentidos, pré-determinados pelo artista, mas, escolhidos pelo espectador. Um filme não deixa de ser arte porque quem está assistindo deixa para ver uma certa parte em outro momento. O espectador pode escolher o momento de ver, ou, os filmes só são arte quando no cinema.

Por fim, a equiparação, que ACERTADAMENTE se faz, é de games com literatura. A não ser que literatura não integre mais as artes, então games são arte, por serem parte da literatura.

Dogmas são muito bem vindos na Teologia e no Direito.

4 respostas para Games e Arte

  1. Borra disse:

    Os especialistas nao acham q games sao arte, mas sim uma forma de literatura😛

  2. henriquemessias disse:

    Literatura é arte. Se alguns games são uma forma de literatura, logo, necessariamente, são arte. Silogismo puro. Você mesmo matou a charada.

    A não ser que você não queira que sejam arte, aí vai de você. Mesmo porque, o conceito de arte é algo eminentemente subjetivo.

  3. henriquemessias disse:

    Lembrando que, filmes como Toy Story, A Era do Gelo, entre outros, são filmes programados. Ou seja, você pode assistí-los, ou ler eles, em um milhão de paginas cheias de números binários (ou qualquer outra coisa), basta saber o que cada conhunto desses números significa.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: